Agrobodiversidade das roças na Comunidade Quilombola de Porto Alegre, Amazônia Tocantina (Pará)
DOI:
https://doi.org/10.5380/guaju.v11i.100031Resumo
Este artigo analisa a configuração da agrobiodiversidade nas roças da comunidade quilombola de Porto Alegre, localizada no município de Cametá, região do Baixo Tocantins, no estado do Pará. O estudo destaca a relevância dos saberes locais e das práticas tradicionais no manejo dos recursos genéticos cultivados. A pesquisa foi realizada entre agosto e dezembro de 2022, por meio de 25 entrevistas semiestruturadas, aplicação da técnica de lista livre e realização de turnês guiadas com os agricultores locais. Os resultados evidenciam que a agrobiodiversidade
presente nas roças está profundamente conectada a aspectos socioculturais, econômicos e alimentares da comunidade. Foram identificadas onze espécies cultivadas, com destaque para a mandioca (Manihot esculenta Crantz), representada por 27 etnovariedades manejadas ativamente. Esse amplo repertório genético reflete um sistema agrícola tradicional baseado na diversidade, na autonomia produtiva e na reciprocidade entre as famílias quilombolas. As práticas de cultivo, seleção e troca de variedades expressam um conhecimento ancestral que resiste às pressões externas e contribui para a soberania alimentar e conservação da biodiversidade local. O estudo ressalta a urgência de políticas públicas que reconheçam e valorizem os conhecimentos tradicionais associados aos recursos genéticos, essenciais para o fortalecimento da sociobiodiversidade nos territórios quilombolas.
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